Guardian // Geopolítica

Seminário da CEPAL revela o preço oculto do crime organizado: quem lucra e quem paga

19/09/2026 Investimentos

O primeiro seminário sobre o impacto do crime organizado na economia da América Latina e do Caribe, realizado em Santiago nos dias 23 e 24 de setembro de 2025 e publicado em 15 de maio de 2026, trouxe à tona números que não deixam margem para discurso suavizado. O estudo do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) mostrou que, em 2022, os custos diretos do crime consumiram 3,44% do PIB da região – um percentual praticamente inalterado em relação ao levantamento anterior. Essa fatia do produto interno bruto equivale a 78% do orçamento público destinado à educação, duplica o gasto com assistência social e supera em 12 vezes o orçamento para pesquisa e desenvolvimento.

Esses números não são meros indicadores econômicos; são armas de pressão. Quando o crime consome quase um terço do orçamento de educação, o Estado tem um incentivo claro a canalizar recursos para a segurança, muitas vezes nas mãos de empresas de segurança privada e de setores ligados ao armamento. A lógica é simples: quanto maior a ameaça, maior a demanda por soluções tecnológicas e operacionais que poucos atores controlam. Assim, o seminário, patrocinado pela CEPAL em parceria com a Fundação Friedrich Ebert, serve como palco para legitimar políticas que favorecem esses interesses.

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Quem realmente paga a conta são os cidadãos mais vulneráveis. O custo do crime, ao dobrar o orçamento de assistência social, drena recursos que poderiam ser usados para redes de proteção social, saúde e habitação. A equivalência de 12 vezes o orçamento de P&D indica que a região está sacrificando inovação em prol de medidas de curto prazo que pouco resolvem a raiz do problema. A probabilidade de que o discurso do seminário seja usado para justificar aumentos de gastos em segurança – em detrimento de investimentos sociais – é alta, dado o histórico de políticas repressivas na região.

Por outro lado, atores externos – desde governos estrangeiros até corporações multinacionais – encontram na instabilidade um pretexto para intervir, seja oferecendo assistência técnica, seja impondo condicionantes de financiamento. Essa dinâmica cria um ciclo onde a presença de crime gera demanda por soluções que poucos detêm, consolidando poder econômico e político nas mãos de poucos. Em suma, o seminário não apenas mede o impacto do crime; ele revela quem tem a intenção de transformar esse impacto em oportunidade de lucro, enquanto a população paga o preço com educação, assistência e futuro.

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