Guardian // Geopolítica

Tokyo e Washington desperdiçam bilhões tentando salvar o iene: quem realmente ganha?

05/09/2026 Investimentos

A tentativa conjunta de Tokyo e Washington de sustentar o iene está se revelando um gasto de fachada que não resolve nada. A intervenção histórica – a primeira em 15 anos – custou entre US$ 5 e 10 bilhões, mas o efeito foi efêmero: o iene chegou a 155 por dólar em um pico intradiário, só para recuar a 159 e já rondar a temida marca de 160. O retorno imediato foi nulo, enquanto o custo fiscal de Tokyo e o esforço de reserva do Tesouro dos EUA continuam sem justificativa clara.

No cerne do problema está o fosso de rendimentos entre Japão e EUA. Enquanto o custo de empréstimo no Japão permanece muito abaixo do americano, investidores continuam a captar barato em ienes para apostar em ativos de maior retorno. Essa estratégia de carry‑trade, que movimenta cerca de US$ 500 bilhões, cria um risco latente: se o fluxo se reverter, o impacto será brutal nos mercados globais. O Fed e o Tesouro, ao trocar euros de reserva por ienes, tentam conter esse risco, mas a medida não tem o peso de uma política de ‘America first’; é, antes, um ato de autopreservação.

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Para as famílias japonesas, a realidade é ainda mais dura: salários reais em queda, inflação importada em alta e nenhuma solução à vista enquanto Tokyo reluta em elevar as taxas de juros ou enfrentar seus problemas fiscais. O benefício, se houver, recai quase que exclusivamente sobre investidores americanos que lucram com o diferencial de juros e com a estabilidade temporária do iene. O custo político e econômico para Washington, porém, também é alto: o esforço de propensão ao iene pode ser visto como um desvio de recursos que poderiam ser usados para reforçar a própria moeda ou outros objetivos domésticos.

Em suma, a intervenção conjunta tem mais probabilidade de ser um paliativo de curto prazo que beneficia poucos – principalmente investidores de alta renda nos EUA – enquanto o ônus recai sobre a população japonesa e sobre os cofres públicos de ambos os países. Se a tendência de queda do iene continuar rumo à zona dos 160, a pressão sobre Tokyo para aceitar custos de financiamento mais altos aumentará, e Washington terá que decidir se continua gastando reservas para conter um risco que pode se tornar um problema sistêmico maior.

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