Guardian // Geopolítica

Transição Verde: Quem realmente ganha e quem paga o preço na fragmentação geopolítica

19/09/2026 Investimentos

A manchete do Fórum Econômico Mundial – “Transição verde mostra progresso, apesar de fragmentação geopolítica” – soa como um comunicado de boas-vindas ao futuro, mas os números revelam quem está realmente colhendo os frutos e quem está sendo deixado para trás. O Índice de Transição Energética 2025 aponta que 65% dos países melhoraram seus scores e 28% avançaram em todas as dimensões – segurança, sustentabilidade e equidade – mas esse avanço não é homogêneo.

Os países nórdicos e a Suíça lideram a corrida, graças a políticas agressivas, infraestrutura robusta e diversificação energética. Essa elite verde já tem capital suficiente para absorver os $2 trilhões investidos em energia limpa, consolidando ainda mais sua posição de referência tecnológica e de mercado. Enquanto isso, a Europa emergente registra os maiores ganhos percentuais, sugerindo que o bloco está tentando fechar o fosso interno, mas ainda depende de financiamento externo para transformar esses ganhos em capacidade real.

A Ásia emergente, embora tenha superado a média global, permanece à margem dos centros de decisão. O fato de que o relatório destaca apenas “Emerging Europe” e “Emerging Asia” como áreas de destaque indica que outras regiões – África, América Latina e partes da América do Norte – não aparecem nos números de progresso, o que sugere que estão sendo excluídas da corrida por capital e infraestrutura.

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Do ponto de vista laboral, a transição verde promete 9,6 milhões de empregos netos até 2030, mas também elimina 2,4 milhões de postos. Essa balança pode parecer positiva, mas a realidade é que os empregos criados tendem a concentrar-se em setores de alta tecnologia e em regiões já ricas, enquanto os postos perdidos afetam trabalhadores de indústrias tradicionais, sobretudo em áreas menos desenvolvidas. A promessa de “just transition” ainda esbarra em aumentos de preços de energia que penalizam quem já está vulnerável, reforçando a divisão socio‑econômica.

Geopoliticamente, a narrativa de progresso serve a interesses claros: atrair investimentos privados, legitimar políticas de subsídios e criar um ambiente de negócios favorável para corporações que já dominam o mercado de energia limpa. Ao enfatizar que a “segurança energética continua sendo testada por riscos geopolíticos”, o Fórum sinaliza que há espaço para intervenções estratégicas – como acordos de fornecimento de minerais críticos – que podem ser manipulados por grandes potências.

Em suma, quem ganha são os países e corporações que já detêm capital e infraestrutura para absorver os fluxos de $2 trilhões; quem perde são as nações menos desenvolvidas, os trabalhadores deslocados e os consumidores que enfrentam preços de energia em alta. A “fragmentação geopolítica” não é só um obstáculo, mas um terreno fértil para que interesses estabelecidos reforcem sua hegemonia enquanto vendem a ideia de um futuro verde que, na prática, ainda está longe de ser universal.

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